Inverno corteja São João

Cultura é uma palavra de origem latina que carrega consigo uma porção de significados. Dentre eles, podemos considerar “o conjunto de manifestações artísticas, sociais, linguísticas e comportamentais de um povo ou comunidade”. No sábado, 22 de julho, o tradicional cortejo de abertura deu início à 29ª edição do Inverno Cultural UFSJ. Com a proposta de levar tais manifestações para toda São João del-Rei, os grupos artísticos Circo e Teatro para Todos, Coletivo Biruta e Raízes da Terra pintaram de cor, som e animação a ensolarada manhã no Largo do Rosário.

Povo e artistas na rua, naquele corredor histórico que já foi palco de cortejos de outros Invernos, era bem a imagem do festival que ressurgia depois de triste parada, amplamente apoiado no caráter extensionista que caracteriza a história da Federal de São João del-Rei, sede que respira e inspira artes e análises que a Universidade é capaz de produzir, apoiar e difundir. Pronto! A receita provava seu acerto: “Acredito que o Inverno Cultural é porta de entrada da comunidade para o mundo das artes. É marca do que a cidade produz em termos de cultura, identidade e integração”, avalia Janaína Trindade, atriz formada no curso de Artes Cênicas da UFSJ, uma das fundadoras do Coletivo Biruta, que reúne artistas craques em explorar o movimento alado dos brinquedos de papel e suas consequências corporais e espaciais. As birutas se assemelham às karpas japonesas; erguidas ao céu, escrevem um balé que inspira os pés de quem não pode voar. As crianças adoraram!

“A cultura nos fortalece, nos dá vida, nos incentiva a seguir lutando pelos nossos direitos, com senso de identidade e orgulho de nos sentirmos parte de um bem maior. A arte é uma necessidade que acaba por se tornar comunicação.” Palavras do professor Cláudio Alberto dos Santos, das Artes Cênicas, atual coordenador do Circo e Teatro Para Todos, projeto que nasceu na UFSJ e se espraiou pelo Matosinhos, Senhor dos Montes e São Geraldo, bairros onde há vulnerabilidade e robustez em medidas semelhantes. Em seis anos de caminhada, seus 11 artistas estiveram juntos em várias frentes: convenções brasileiras de malabarismo e circo, luta antimanicomial, direitos dos trabalhadores, Apae, festivais.

O trajeto do cortejo, do Largo do Rosário ao Largo do Carmo, animado por trilha sonora do Grupo Percussivo Raízes da Terra, embalava também a dança do Papudo, “monstro” Biruta que ama engolir o público, principalmente crianças “maciiinhas”, as únicas com joelhos (e pique!) capazes de aguentar tanto sacolejo… Bicho papão verde-limão, simpático como o Sully de Monstros S.A., o Papudo se inspira no personagem Bernunça, do Boi de Mamão, manifestação popular no sul do Brasil.

Os tambores do Raízes obedeciam ao comando de Miriam Martaíze, enérgica com a linha harmônica dos instrumentos como se vê na Sapucaí, legitimada pela linhagem de quem “praticamente nasceu” no Grupo, sob as bênçãos de ninguém menos que Dona Vicentina, sua avó, e personagem fundamental para a construção do Raízes da Terra. “Frequento os ensaios desde os três anos de idade.” Mesmo assim, estava aflita por substituir Mestre Inácio, titular das baquetas, em quem se inspira. A julgar pela alegria no ar, quase palpável no Largo da Cruz, para onde o cortejo foi aprovadamente desviado, a fim de não interferir no casamento que se realizava na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, Miriam é mestra. E sábia: com o filho ao colo (na mãozinha um pequeno chocalho), fala sem temor das dificuldades que rondam o Raízes – a população flutuante de universitários, em detrimento de crianças e jovens da comunidade do bairro São Geraldo, desinteressados ou desestimulados a participar; falta de um local permanente de ensaios; envelhecimento dos fundadores. “Éramos 60 membros; hoje, somos apenas 15.”

Contudo, o Grupo segue, perene na memória de quem por ele passou nesses 16 anos de história. Marcele Nogueira, formada em Psicologia pela UFSJ, foi bolsista do projeto de extensão, coordenado pelo professor Marcos Vieira Silva, que arquitetou o Raízes da Terra, em 2001. “A vida leva a gente pra longe, mas é sempre um prazer estar perto do Grupo. É uma alegria sem fim, porque pulsa, todos ficam com os olhos brilhando, felizes, e o dia fica colorido”, analisa, emocionada.

O tempo passou, o cortejo chegou ao fim, em ciranda: crianças, adultos, bailarinos, instrumentistas, malabares e plateia dando as mãos, delimitando o círculo de dança para o Papudo, finalmente, descansar, e compor o cenário para a foto do 29º cortejo de abertura do Inverno Cultural UFSJ.

Bem-vindo, Inverno!

 

Texto: Ana Luiza Fonseca

Edição: Cibele de Moraes

Foto: Marcius Barcelos


Publicada em 24/07/2017
Fonte: ASCOM

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