Inclusão é educar sem negar a diversidade

ENTREVISTA

Com o objetivo de mudar um cenário educacional excludente, foi idealizado pela pedagoga e escritora Geana Krause o livro Reflexões e práticas - Os desafios na área do saber. Composto por artigos escritos por pesquisadores da área da Educação, a obra aborda as problemáticas que envolvem a oferta de uma educação igualitária. Um dos capítulos é Diversidade: heteronormatividade e homofobia na escola, escrito pelo professor do curso de Letras da UFSJ, Adriano Silva.

O docente é assistente editorial e escritor, tendo publicado também os livros Lugar comum (2016), Contos e encontros do coração (2017), Um céu e estrelas (2017) e Beijo roubado (2018). Reflexões e práticas pode ser acessado via e-book, disponível pela editora Leia Livros, e via materialidade: será lançado na Feira do Livro de Porto Alegre.

Confira abaixo a entrevista com Adriano e as suas perspectivas para uma educação brasileira mais inclusiva.

Qual a importância de abordar a inclusão na educação brasileira?
A escola é um direito de todos - partimos dessa premissa. Logo, a abordagem da inclusão no ambiente escolar é uma necessidade que se faz no sentido do pleno desenvolvimento e do fortalecimento da personalidade, do respeito aos direitos e liberdades individuais e coletivas para uma construção e incentivo da cidadania. A inclusão, portanto, significa educar todas as crianças em um mesmo contexto escolar sem negar a diversidade na qual se amplia a visão de mundo, valoriza-se a realidade social do aluno e o desenvolvimento de oportunidades de convivências diferenciadas.

Como os profissionais da educação podem atuar para que os estudantes tenham uma formação mais inclusiva?
De modo geral, os docentes já possuem esse reconhecimento da diversidade e as diferenças individuais que compõem a escola, logo são conscientes da urgência de transformar o sistema educacional a fim de garantir condições de acesso à aprendizagem de crianças e jovens por meio de todos os mecanismos de desenvolvimento que a escola oferece. Para uma educação, de fato, inclusiva, o professorado deve estar em constante desenvolvimento profissional, no qual os processos de formação inicial e continuada se baseie em princípios e leis capazes de oferecer condições de aprender, na convivência com as diferenças, desenvolvendo assim um cidadão pleno.

Atualmente, a educação brasileira tem sofrido com a repressão de governantes homofóbicos. Como os educadores têm atuado contra essa corrente e o que é necessário para que esse quadro mude?
Precisamos ter em mente que a homofobia não nasce no ambiente escolar. Ela vem do ambiente de convívio dos alunos e é na escola, o ambiente de interação com seus pares, que se externaliza. A escola sozinha será incapaz de combater o preconceito contra gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis e demais sujeitos (LGBTQ+), porém é nela o ambiente mais promissor para o combate à Homofobia. Os professores e demais gestores do grupo escolar têm feito pressão no governo para que essa omissão explícita não ocorra, tendo em vista que essa situação é urgente e requer políticas públicas eficazes capazes de garantir um currículo que contemple efetivamente abordagens científicas e de direitos humanos sobre as questões de gênero e sexualidade, a formação inicial e continuada de docentes para abordagem em sala de aula, inclusão dessas temáticas no material didático, consolidação de canais de denúncia de violação, abusos e violência contra alunos.

Qual a abordagem do seu capítulo no Reflexões e práticas?
Meu capítulo no livro tem como título: Diversidade: heteronormatividade e homofobia na escola, no qual faço uma abordagem sobre esse tema que hoje se encontra tão presente em nossa sociedade. O estudo é fruto de uma intensa pesquisa em que é exposta a heteronormatividade como a principal causadora do sofrimento de alunos no ambiente de ensino. Vale ressaltar que a homofobia não causa somente problemas de sofrimento e doenças como a depressão em exclusivamente LGBTQ+, mas sim também aqueles que possuem características predeterminadas, ou desviantes, que fogem aos padrões ditos normais de macho/fêmea, feminino/masculino, homem/mulher. O estudo traz também, além das vítimas e seus espectadores, o mapa do sofrimento dos agressores, os chamados bullies, já que estes também vivem uma situação de sofrimento intenso.

Como o bullying relacionado à homofobia interfere no aprendizado e nas relações sociais da escola?
O bullying homofóbico esteriliza as oportunidades educacionais e de aprendizagem. A escola deveria ser o ambiente em que as crianças possam se desenvolver e adquirir habilidades para que no futuro ocupem diferentes postos na sociedade e não simplesmente a instituição, com suas normas e disciplinas focalizando somente o conteúdo e ignoram o indivíduo como um ser são professados e reproduzidos sistematicamente. A heteronormatividade é uma utopia convencionada, não é somente uma violência contra aqueles que transgridem as barreiras da sexualidade, mas também aqueles que possuem comportamentos incomuns a sua maioria. As vítimas da homofobia possuem mais probabilidades de cometer suicídio, uso abusivo de álcool e drogas, além de terem maiores chances de comportamentos sexuais de risco, segundo um estudo de grandes proporções, realizado na Irlanda, estabeleceu-se uma conexão clara entre bullying homofóbico e pensamentos suicidas.
 


Publicada em 08/10/2018
Fonte: ASCOM

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