Estudante da UFSJ supera barreiras e disputa Mundial de Mountain Bike

Neste ano, o Brasil recebe pela primeira vez o Campeonato Mundial de Mountain Bike, que será realizado na cidade de Costa Rica (MS) nos dias 27 e 28 de julho. O torneio reúne os melhores atletas e paratletas do mundo, entre eles Athos Martins da Costa (foto), 32. Estudante de Licenciatura em Educação Física na UFSJ, ele compete na categoria de portadores de necessidades especiais.

Aos sete anos de idade, Athos Martins sofreu um acidente de carro, teve politraumatismo no braço esquerdo e precisou amputar o antebraço. “Como fiquei órfão nesse acidente, fui morar com a família da minha mãe, em Santa Bárbara”, relembra. Ele morou com a avó até os 16 anos, quando se mudou para Barbacena para estudar Zootecnia na Escola Agrotécnica local. Formado aos 20 anos, mudou-se para Belo Horizonte, onde começou a trabalhar. “Foi nessa época que comecei a pedalar, graças a um diretor da escola, que me deu uma boa bicicleta de presente.”

Desde então, alcançou grandes feitos como atleta. Em 2014, esteve na cidade eslovena de Liubliana, onde disputou o Mundial Amador de Ciclismo de Rua. No ano seguinte, foi campeão brasileiro de pista e ganhou o Prêmio Bom Exemplo, da TV Globo Minas. Foi também nesse ano que ele correu pela primeira vez a ultramaratona Brasil Ride, na Chapada Diamantina (BA). Com sete dias de duração, a prova exige que os ciclistas percorram 600 km. “Fui da primeira dupla de paraciclistas a completar uma maratona no mundo”, destaca. Ao todo, ele disputou quatro ultramaratonas, a última delas em Arraial d’Ajuda (BA), no ano passado.

“É difícil viver do esporte no Brasil, ainda mais sendo deficiente”, lamenta. Para competir, Athos precisa de apoio financeiro para custear as passagens, a hospedagem e o transporte da bicicleta, o que nem sempre é possível. Por exemplo: teve que se deslocar de ônibus até a Chapada Diamantina, uma viagem que durou 48h. “Você fica destruído depois de uma prova dessas, perde peso, demora uma semana para ficar bem, emocional e fisicamente. O esporte de alto rendimento faz mal, não é saudável”, afirma. Para estar no campeonato mundial no Mato Grosso do Sul, Athos abriu campanha de financiamento coletivo para custear a viagem.

Ultrapassando as dificuldades

Tudo mudou em 2016, ano em que prestou o Enem e conquistou vaga para estudar Educação Física na UFSJ. “Decidi estudar porque, para o atleta, é difícil a vida depois da aposentadoria. A gente vive de patrocínios, de corridas, vive de vitórias. Muitos têm até depressão depois que se aposentam.” Anteriormente, ele havia tentado, sem sucesso, o vestibular para os cursos de Medicina e Farmácia. A Educação Física começou a fazer parte de sua vida quando deu aulas de ciclismo para crianças de sua cidade.

Devido à graduação, Athos precisou reduzir a rotina de treinos e competições. A respeito do curso, voltado para a vivência esportiva e não para o esporte de alto rendimento, foi um choque de ideias: “O meu negócio era a competição, mas o curso me apresenta uma perspectiva mais humana das coisas. É ensinar a criança a andar de bicicleta, a viver o esporte.” Além dos compromissos acadêmicos, as dificuldades financeiras e de logística também foram fatores que afetaram a atividade do atleta profissional.

De acordo com o ranking da Confederação Brasileira de Ciclismo, Athos foi o 9º melhor paratleta do país em 2017, somando 155 pontos. Em nível mundial, foi o 54º melhor do mundo na categoria masculina de elite C5, em 2018. “Quero que me vejam como atleta, como o campeão brasileiro que sou, o cara que já correu ultramaratonas, não como um coitadinho”, revela.

Com o auxílio da ciência do design

Devido à deficiência, Athos precisou adaptar sua bicicleta. As duas manetes precisam ser colocadas do mesmo lado do guidão, que também recebe um apoio que o permite pedalar em pé. “Trabalho no desenvolvimento de uma prótese com a Escola de Design da Uemg há cinco anos,” conta.

Trata-se da pesquisa coordenada pela professora Iara Sousa Castro, que coordenou e orientou todos os projetos científicos relacionados ao desenvolvimento de órteses e próteses voltadas para atletas de alto rendimento. “É possível que a prótese propicie mais estabilidade e equilíbrio, diminua as quedas e o risco de se machucar, minimize as possíveis dores musculares oriundas de posturas penosas e de esforço físico exagerado”, explica Iara, anunciando que ainda há muito a ser pesquisado sobre o tema em estudo.

Iniciada em 2015, a pesquisa deu origem a outros trabalhos científicos e também a um projeto de extensão, ainda em andamento, no Centro de Pesquisa em Design e Ergonomia da Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg). Ao longo desses anos, a equipe avançou nos estudos, apesar da falta de repasse de recursos, o que reflete a realidade vivida por diversas instituições de ensino brasileiras. Todo o projeto foi financiado com recursos da Uemg e da Fapemig.

“A primeira pesquisa visou conhecer de perto a atividade de competição do Athos e perceber as dificuldades e estratégias elaboradas pelo atleta, que tinha um ótimo desempenho, apesar de conduzir sua bicicleta com auxílio de um barbante”, declara a professora. Em 2016, foi elaborado o primeiro projeto de prótese, que se transformaria em um par de modelos físicos dois anos depois.

Nesse período, Athos participou de todas as etapas da pesquisa e da elaboração do projeto, que apenas neste ano foi aprovado por edital da Fapemig. De acordo com Iara Castro, a equipe ainda aguarda a liberação desse recurso para execução de um modelo que será testado em situação real de uso. Iniciado por um estudante já graduado, essa pesquisa envolveu 12 pesquisadores, fez surgir dois projetos de extensão e aproximou os estudantes das demandas dos para-atletas. 


Publicada em 22/07/2019
Fonte: ASCOM

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