Medicamentos "milagrosos" para tratar Covid sofrem aumento de preço, indica pesquisa

Em abril deste ano, já em meio à pandemia do novo coronavírus, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) enquadrou a hidroxicloroquina como “medicamento de controle especial”. Essa medida surge para evitar o desabastecimento do produto nas farmácias e drogarias do país, num momento em que circulava a informação de que esse seria um dos possíveis tratamentos para a doença causada pelo Sars-Cov-2. Não há comprovação científica da eficiência da hidroxicloroquina ou de outros medicamentos no combate à Covid-19, o que não impediu que autoridades de todo o mundo incentivassem a sua compra.

“Hidroxicloroquina”, “ivermectina”, “dexametasona”: nomes rapidamente assimilados pelo vocabulário popular e jornalístico, por terem sido apontados como “promessas terapêuticas” para o tratamento da doença, em mais um episódio danoso da circulação de informações falsas disseminadas via WhatsApp e outras redes. É pertinente, por outro lado, pensarmos sobre as consequências econômicas dessas fake news: a variação dos preços de tais medicamentos desde que se tornaram foco de discussões públicas.

Investigar esse problema é justamente o objetivo de pesquisa desenvolvida na UFSJ, no Campus Centro-Oeste Dona Lindu, sob orientação do professor André Oliveira Baldoni, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas (PPGCF). Resultados do estudo foram publicados na última edição da Revista de Saúde e Ciências Biológicas, com o título Efeito das “promessas terapêuticas” sobre os preços de medicamentos em tempos de pandemia. Assinam o artigo, em parceria com o orientador, as professoras Mariana Linhares Pereira, coordenadora do curso de Farmácia, e Farah Maria Drumond Chequer, da equipe docente dessa graduação; a mestranda do PPGCF, Amanda Maria de Paiva; o graduando Athos Wellington da Silva Pinto; e o colaborador externo Bruno Lobato Cançado.

A seguir, André Baldoni e Amanda de Paiva nos trazem detalhes desse trabalho.

Primeiros passos e conclusões
O primeiro passo foi identificar os medicamentos que em algum momento foram considerados “promessas” para o tratamento da Covid-19, estabelecendo como recorte a disponibilidade de compra no Brasil. Foram elencados oito: azitromicina, dexametasona, hidroxicloroquina, ivermectina, nitazoxanida, polivitamínico, vitamina D3 50.000UI e vitamina D4 3.300UI.

Numa segunda etapa, foram analisados os custos reais de aquisição em uma drogaria do interior de Minas Gerais, entre janeiro e junho deste ano, as notas fiscais sendo a principal fonte de coleta desses dados. Em seguida, calcularam a média desses valores.

O estudo constatou que, dos oito medicamentos estudados, sete (ou 87,5%) apresentaram aumento no valor de compra. A dexametasona (265,74%) e a ivermectina (249,64%) apresentaram maior elevação. O polivitamínico mostrou a menor variação (5,44%). A hidroxicloroquina, adquirida entre janeiro e março, foi o único medicamento (12,5%) que não sofreu variação. “A partir do mês de abril, a hidroxicloroquina se tornou indisponível para compra nos distribuidores”, justificam.

Os riscos sociais das fake news em meio à pandemia
“Não existe um medicamento milagroso, que se descobre da noite para o dia e que não traga efeitos adversos”, esclarece o professor André Baldoni, quando analisa as consequências das fake news. Para que o público possa lidar com quaisquer informações que receber a respeito daquelas, ou de outras “promessas”, o pesquisador recomenda: “Avalie se o texto recebido está assinado e se a fonte é confiável. Preste atenção à data de publicação. Leia a notícia até o fim, e desconfie de notícias bombásticas, não publicadas por nenhum outro veículo. E, antes de compartilhar, pergunte a opinião de alguém que entenda do assunto.”

Por seu turno, a mestranda Amanda de Paiva aponta que a propagação de notícias sem compromisso com a verdade “influencia pessoas a usar medicamentos, chás e a adotar medidas não farmacológicas que podem ser inúteis ou até prejudiciais, afetando a saúde da sociedade como um todo.” Nesse cenário, o papel dos profissionais de Farmácia, que atuam nos estabelecimentos comerciais, ganha relevo no combate à desinformação e à infodemia. O farmacêutico e a farmacêutica estão em contato direto e diário com a população e, por isso, devem orientar os pacientes, rigorosamente, quanto aos riscos e benefícios dos medicamentos que estão comprando. Para sua carreira, Amanda sabe da importância dessa pesquisa, que “despertou mais ainda a vontade de orientar a população, fazendo com que os perigos sejam minimizados.”

André e Amanda têm ciência de que a Universidade cumpre um papel central no combate à desinformação, não somente por se constituir num lócus do pensamento criativo e reflexivo, mas também por meio de iniciativas como o Covid na Rádio, projeto desenvolvido, no primeiro semestre deste ano, pelo Núcleo de Pesquisa em Farmácia Clínica da UFSJ (NEPeFaC).

 

João Vítor Bessa
Estudante de Jornalismo, estagiou na Ascom


Publicada em 13/11/2020
Fonte: ASCOM

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