Egresso estreia com romance de resistência homoafetiva

Ex-aluno da UFSJ e mestrando em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Isaac Ribeiro lança seu primeiro romance, O peso do vento, no qual narra a relação amorosa vivida entre dois adolescentes nascidos numa típica cidade do interior. Em entrevista, o novo autor fala porque escolheu esse tema, discorre sobre a carência da Literatura em tratar de temas afeitos ao universo homoafetivo e sobre seu processo de criação.

Em linhas gerais, de que trata esse primeiro livro?
Isaac Ribeiro: É uma obra literária de resistência, que traz em seu enredo as implicações de um romance gay em uma sociedade heteronormativa. O peso do vento vem potencializar, de maneira sutil, a vida de meninos e meninas, para que tenham coragem de aceitar suas identidades, lutar por sua felicidade e exigir do Estado aquilo que é seu por direito, garantido na nossa Constituição. O romance tem duas fases bem demarcadas. Na primeira, temos Lucas e Pedro ainda pré-adolescentes, descobrindo as potencialidades de sua existência como futuros homens no mundo. Nessa fase, a história carrega a simplicidade de um mundo rural, e se desenvolve em um espaço bucólico. Na segunda fase, encontramos dois jovens mais maduros e donos de si. A relação com os animais e o respeito pela natureza perpassa a história de Lucas e Pedro, que nesse momento são carregadas de sexualidade, erotismo e paixão intensa.

Porque você escolheu uma relação homoafetiva para seu primeiro livro?
Isaac Ribeiro: Primeiro, porque sou bissexual e sinto que há na literatura brasileira uma carência em trabalhar essa temática. Temos bons romances gays no Brasil, mas uma parcela muito insignificante dentro da literatura nacional. Grande parte dos nossos escritores direcionam suas histórias a romances para o público hétero, talvez pelo fato de nossa formação cultural e social ter sido direcionada a uma sociedade heteronormativa. Entretanto, acho que estamos num momento de reavaliar nossos valores éticos, sociais, religiosos e culturais. Acredito que precisamos repensar nossa postura como cidadãos de um mundo plural e igualitário.

Sobre seu processo criativo: como veio a inspiração em O peso do vento?
Isaac Ribeiro: Durante esse processo de escrita, assisti a muitos documentários e filmes, li muitos livros com essa temática, ouvi várias pessoas, mas acredito que a fonte mais inspiradora foi God’s Own Country, um filme gay ambientado em uma fazenda de ovelhas no norte da Inglaterra. A história e a veracidade do roteiro me impactaram, e a possibilidade de escrever um romance no qual a história se passaria em uma comunidade rural me trouxe inquietações. Tantas, e tão fortes, que dias depois já estava dando vida e movimento a Lucas e Pedro. Durante quase dois anos, foi a potência prazerosa que me estimulou caminhar. As personagens me ensinaram a ser mais resiliente e a acreditar que o fim é sempre o início de algo novo. Escrever é um processo no qual o escritor se implica nas personagens, tatuando nelas sua escrevivência. Nesse processo, perdi minha mãe, e isso intensificou ainda mais meu conceito de felicidade e amor pelo próximo. Minha mãe foi uma mulher de uma sabedoria incrível, sempre muito generosa. Tenho certeza de que apoiaria o amor homoafetivo entre Lucas e Pedro, como ficou claro na fase em que tive a felicidade de compartilhar com ela a construção desse livro.

Qual a mensagem que você quis passar nas entrelinhas desse livro?
Isaac Ribeiro: Viva! E faça isso com muita intensidade. O tempo é único e a vida é curta demais para vivermos sobre convenções que não ajudamos a construir.

Percebe-se que seus personagens enfrentam preconceitos numa sociedade conservadora do interior. Como você vê o preconceito em nossos dias, e como você o retrata no livro?
Isaac Ribeiro: Acredito que a sociedade brasileira tem mudado bastante nos últimos tempos, embora o Brasil seja um dos países do mundo que mais mata a população LGBTQI+. Ainda falta muito para nos sentirmos inseridos no Estado brasileiro, devido ao imenso preconceito, inclusive religioso, acerca desse tema. Entre os avanços, essa nova geração carrega consigo mais liberdade em discutir a pluralidade do mundo. Assim, o leitor percebe que nossa sociedade ainda continua hipócrita e cruel com os que vivem à margem, sendo levado a uma profunda reflexão sobre as diversidades, sexual e racial, que, espero, o estimule a repensar suas práticas de enfrentamento em relação às minorias.

Quais são seus autores preferidos ou que mais o influenciaram?
Isaac Ribeiro: Que pergunta difícil! Eu já me apaixonei por tantos autores... Eleger um autor e uma obra literária é quase impossível. Porém, acho que um dos autores que mais me marcou foi Graciliano Ramos. Fiquei muito impactado com Vidas Secas, é uma linguagem singular dentro da nossa literatura, um clássico que não consigo parar de ler. E a cada nova releitura aprendo mais com Graciliano.

Você pretende fazer uma trilogia. Dizem que a boa história não se esgota nunca...
Issac Ribeiro: Quando escrevi O peso do vento, pensei num romance LGBTQI+ apenas. Entretanto, amigos próximos sugeriram um seguimento da história, o que me assustou um pouco. Comecei a maturar a ideia, e hoje estou trabalhando o segundo volume do romance. Se haverá um terceiro volume, não posso dizer ainda.


Publicada em 17/03/2021
Fonte: ASCOM

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