Da vida nas ruas ao teto dos livros: quando o eu somos nós

Laura Barbosa Campos

Clarice Fortunato estreia na literatura com o pé direito. A leitura de Da vida nas ruas ao teto dos livros (2020) é uma dessas experiências das quais não se sai incólume. O livro, lançado recentemente pela Editora Pallas, integra a tese de doutorado da autora.

No conhecido ensaio Um teto todo seu, Virginia Woolf destaca a importância da mulher ter o seu próprio espaço para escrever, mas, se pensarmos na realidade brasileira, podemos nos perguntar: e quando não se tem nem um teto para viver? Essa foi a triste realidade da escritora Clarice Fortunato durante parte de sua infância. Sua dolorosa experiência se tornou uma impactante narrativa em que traumas individuais fazem eco a traumas coletivos e ancestrais.

Clarice Fortunato nasceu em 1976, no interior do Paraná, filha de pai negro, boia-fria, analfabeto e mãe branca, de olhos azuis. Depois da morte do pai, a menina Clarice, ainda com cinco anos, acaba sozinha com a mãe e, sem moradia, as duas se tornam andarilhas, sujeitas a intensas violências físicas e simbólicas. Após o falecimento da mãe, a autora-narradora consegue dar prosseguimento à sua escolaridade, apesar de ainda ter se deparado com muitos empecilhos.

Da vida nas ruas ao teto dos livros nasce de uma necessidade sentida no momento em que a autora se encontrava em Exeter, na Inglaterra. O gatilho para a escrita de si surge então a partir de um distanciamento geográfico. Esse processo passa por um resgate da memória coletiva e de um espólio da dor que remete à escrevivência de Conceição Evaristo e aos trabalhos de Carolina Maria de Jesus. Como afirma Clarice Fortunato: “Se meu navio negreiro foi a rua, com a minha mãe, a minha escrita é libertação, é catarse: uma hermenêutica do eu, muito além de toda teoria.”

Da vida nas ruas ao teto dos livros é uma obra perturbadora no melhor sentido do termo, como deve ser a boa literatura. Vale a leitura!

 

Doutora em Letras, é professora do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
 


Publicada em 22/03/2021
Fonte: ASCOM

 Voltar