A alma e os corpos violados durante as ditaduras civil-militares na América Latina

Erika Savernini

Em 1979, Haydee Oberreuter tinha 21 anos quando foi presa por sua militância contra o regime do General Pinochet. As sessões de tortura a que foi submetida envolveram uma espécie de autópsia viva, que lhe rendeu diversas cirurgias e um trauma muito vivo 40 anos depois. Parte dessa história é contada no documentário Haydee e o peixe voador (Chile-Brasil, 2019), dirigido por Pachi Bustos.

As torturas sofridas pelas presas políticas nas ditaduras civil-militares da América Latina revelam um componente a mais de brutalidade: um prazer perverso na violação do corpo feminino das mais terríveis formas possíveis. Nesse sentido, na cinematografia brasileira é imprescindível o filme Que bom te ver viva (Brasil, 1989, disponível no YouTube), de Lucia Murat, no qual os depoimentos de militantes brasileiras são mesclados com a personagem ficcional vivida por Irene Ravache (uma síntese da dor e da ferida aberta). No caso de Haydee, ela sofreu em seu corpo e no do feto em seu ventre, abortado não se sabe ao certo se pelos espancamentos ou pela autópsia. A esse bebê, Haydee chama de Sebastian e, para ele, passados 40 anos, ela persiste na busca de justiça e de libertação (a comovente cena final dos peixes voadores).

O filme foi produzido em um momento crucial da história de Haydee: estava chegando ao fim o julgamento de seus algozes. Um processo inédito no Chile de responsabilização de militares envolvidos na tortura de presos e presas políticos durante a ditadura de Pinochet. Um momento de redenção pessoal de Haydee e do próprio país. Dessa forma, a história de Haydee é representativa da dificuldade dos países da América Latina em lidar com esse trauma profundo, uma vez que as marcas estão presentes no espírito e nos corpos que viveram esse horror, que parte da sociedade insiste em querer esquecer ou, pior, negar o que aconteceu. “É preciso lembrar para não esquecer.”


Doutora e mestre em Artes - Cinema, pela Escola de Belas Artes da UFMG. Professora e coordenadora do curso de Rádio, TV e Internet da FACOM-UFJF e do projeto de extensão Cineclube Lumière e Cia. Autora do livro Índices de um cinema de poesia: Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzystof Kieslowski (Ed. UFMG)


Publicada em 30/03/2021
Fonte: ASCOM

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