Agrônomos da UFSJ assinam e-book sobre a dinâmica agropecuária

A Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, lançou o e-book Dinâmica da produção agropecuária e da paisagem natural do Brasil nas últimas décadas, que reúne análises quantitativas de dados geográficos sobre a produção rural no país. O material é extenso: 57 capítulos divididos em quatro volumes, que tratam, entre outros temas, da agricultura familiar, do uso de agrotóxicos e do Cadastro Ambiental Rural.

Escrevem 16 pesquisadores do Campus Sete Lagoas (CSL), sendo quatro docentes, sete estudantes e cinco egressos, que participam de nove capítulos. Entre eles, o professor André Hirsch, do curso de Engenharia Agronômica, e a estudante Gilma Silva.

O professor destaca a importância da parceria técnico-científica entre UFSJ e Embrapa, por representar uma possibilidade de estágio para estudantes de graduação ou pós-graduação, que passam a conhecer, na prática, o que aprendem na sala de aula. “Também permite um intercâmbio científico rico, tanto em termos de parceria em projetos de pesquisa e de extensão, quanto em termos de produção científica.” Em Sete Lagoas, a sede da Embrapa Milho e Sorgo é vizinha do CSL.

A atividade humana que modifica a paisagem dos biomas
Um dos capítulos escritos por André Hirsch trata da Variação espaço-temporal da cobertura vegetal e uso da terra no Brasil, e teve como fonte os dados do Projeto MapBiomas (2019), com resolução precisa e confiável de satélite. A divisão total do território assim está: 62% é ocupado por florestas, 28% pela agropecuária, 6% por formação natural não florestal, 2% por corpos d’água e uma mínima parte, áreas sem vegetação.

Outra forma de análise se dá entre as classes antrópicas (como plantações, construções urbanas e mineração) e naturais, que representam, respectivamente, 1/3 e 2/3 do território nacional. “O bioma que aparece isoladamente como o mais afetado pela ação humana é, claramente, o da Mata Atlântica”, no qual as classes antrópicas alcançam 66,76%. Essa relação se observa também na Caatinga, no Cerrado e nos Pampas (40%); no Pantanal e Amazônia, são 13%.

Com essas informações, o professor acredita que o principal desafio para o Cadastro Rural Ambiental é sua validação pelos órgãos ambientais do Estado. Os dados analisados podem “contribuir de forma decisiva para uma melhor transparência da política ambiental e conservacionista do Brasil.” André ressalta, ainda, a questão econômica envolvida: “Alguns recursos financeiros oriundos da Europa para financiar projetos de desenvolvimento no Brasil estão sendo suspensos devido ao desmatamento da Amazônia e ao alastramento dos incêndios florestais no Pantanal matogrossense.”

Com quantos capítulos se decide uma carreira?
Gilma Silva é uma dos cinco editores técnicos do livro. Responsável pela editoração, ela escreveu, corrigiu e formatou um total de 32 capítulos - 24 deles no segundo volume da coleção. Ao lado de sua colega Elena Charlotte Lendau, realizou a pesquisa, organização de dados e elaboração das figuras presentes em alguns desses capítulos.

Sua trajetória profissional começou na licenciatura em Ciências Biológicas, pela UFMG, em 2016. Atuou no ensino básico como professora de Física e Química, antes de ingressar no curso de Engenharia Agronômica da UFSJ, no ano seguinte. Desde então, é estagiária da Embrapa Milho e Sorgo e voluntária no PET Agronomia. A nova graduação a motivou a buscar uma pós-graduação simultânea.

Gilma considera seu trabalho no e-book como o mais importante de sua carreira até aqui: “A publicação do livro despertou em mim a vontade de continuar os estudos, em fazer doutorado e prosseguir na carreira acadêmica.” Ela participou dos capítulos sobre produção vegetal, analisando as áreas plantadas ou destinadas à colheita a partir de dados nacionais ou municipais, com foco nos índices de rendimento médio, produção e valor de produção, nos últimos 30 anos, cultura por cultura. “Entre 1990 e 2016, as áreas destinadas à colheita diminuíram; entretanto, houve aumento de rendimento médio, produção e valor da produção. Isso pode ser um forte indício de como a adoção de técnicas de manejo adequadas e investimento em pesquisas para melhoria dos materiais pode permitir maior produção em menor extensões de terra.”

Uma prova da necessidade do financiamento público de pesquisa
Não há riscos para a equipe de pesquisa tecer críticas ao modelo de produção vigente. Pelo contrário: ajuda a desenvolver, na opinião do professor André Hirsch, pesquisas que não estejam necessariamente relacionadas à produção de milho e sorgo, foco da Embrapa Sete Lagoas. As possibilidades são inúmeras: geoprocessamento e georreferenciamento; manejo integrado e controle de pragas; desenvolvimento do GeoPortal Embrapa Milho e Sorgo, banco de dados desenvolvido em parceria com a UFSJ.

Ações integradas como essa são possíveis graças ao financiamento público da pesquisa científica. “Caso as pesquisas fossem financiadas por empresas privadas, elas poderiam destinar recursos somente para a mecanização da lavoura, em vez de financiar o desenvolvimento de novas variedades de culturas agrícolas usadas na alimentação da população brasileira”, pontua André. Essa pesquisa teve apoio da Fapemig, do CNPq, da Agência Nacional de Águas e da Fundação de Apoio à Pesquisa e Desenvolvimento (Faped).

Além da equipe da UFSJ, participaram da coleção autores da própria Embrapa e da UFMG, do Ministério da Agricultura, e estudantes de diversas universidades brasileiras. O material pode ser acessado livremente pela plataforma ResearchGate ou pelo banco de publicações Alice - Acesso Livre à Informação Científica da Embrapa.

 

João Vítor Bessa
Estudante de Jornalismo, estagia na Ascom


Publicada em 05/09/2020
Fonte: ASCOM

 Voltar