O feminismo cinematográfico da pioneira Alice Guy

Ana Lúcia Andrade

A data em homenagem à luta e às conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres só foi definitivamente instituída pela ONU em 1975, década que fez emergir a então preterida primeira diretora de cinema do mundo: Alice Guy (1873-1968). Esta pioneira francesa, que entrou no mercado cinematográfico ainda em 1896, como secretária da Gaumont, fabricante de câmeras e projetores, logo se firmou como cineasta, impressionando tanto pela qualidade de suas produções que, já em 1905, foi nomeada diretora de produção, supervisionando outros diretores da empresa.

A História do Cinema, também oficializada pela cultura machista, acabou escondendo o protagonismo das mulheres que ajudaram a desenvolver esta arte (vale a pena conferir o documentário E a mulher criou Hollywood – Et la femme créa Hollywood, França/EUA, 2016, de Clara e Julia Kuperberg). Os filmes dos primórdios não tinham créditos como hoje, mas, através de digitalização, pesquisa aprofundada e uma consciência sobre o potencial feminino, os créditos de algumas obras passaram a ser reatribuídos, como é o caso das de Alice Guy.

De sua vasta e ainda pouco conhecida filmografia, tanto como diretora quanto produtora, pode-se destacar Os resultados do feminismo (Les résultats du féminisme, França, 1906) em que os “papéis” de homens e mulheres estão invertidos, suscitando uma reflexão crítica e bem humorada sobre os absurdos padrões de comportamento apreendidos em sociedade.

Além de promover temáticas sobre igualdade de gênero, Alice Guy foi precursora ao experimentar com o som e a cor, antes de seu desenvolvimento técnico: “Não há nada relacionado à encenação de um filme que uma mulher não possa fazer tão facilmente quanto um homem”, escreveu a cineasta na revista americana Moving Picture World, em 1914, quando já morava nos Estados Unidos, onde se estabeleceu com o marido Herbert Blaché, montando sua própria produtora, a Solax, em 1910, e construindo um estúdio que, por problemas financeiros, acabou fechando, em 1919.

Embora o marido tenha dirigido filmes para estúdios de Hollywood, Alice Guy não conseguiu se firmar na indústria predominantemente masculina ali estabelecida. Felizmente, seu legado é hoje lembrado e estudado, conferindo o merecido valor a esta talentosa e desbravadora artista feminista.


Professora Titular do Departamento de Fotografia e Cinema da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. Feminista, cinéfila e amante de gatos.


Publicada em 29/03/2021
Fonte: ASCOM

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