"O acesso à Educação é uma forma de poder"

Conseguir ingressar numa instituição de Ensino Superior pode ser um desafio para muitos jovens, especialmente aqueles que enfrentam a dupla jornada de estudos e trabalho. Em São João del-Rei, uma bela iniciativa surgiu, com vistas a sanar essa desigualdade em relação ao acesso à Educação pública: o Cursinho Popular Edson Luís (CPEL). Idealizado em 2013 pelos militantes do movimento social Levante Popular da Juventude, o Cursinho é hoje um dos programas de extensão da UFSJ, tendo sido, inclusive, premiado como destaque na XVIII Semana de Extensão deste ano.

A ideia é oferecer curso preparatório para o Enem e demais vestibulares a estudantes em situação de vulnerabilidade, que não tenham condições de arcar com os custos de um pré-vestibular regular. Alunas e alunos são isentos de mensalidade e frequentam aulas de segunda a sexta, no período noturno. Muito além de democratizar o ingresso ao ensino universitário, o CPEL segue outros objetivos. “Nossa atuação, além de educacional, também é um projeto político, pois acreditamos que o acesso à Educação é uma forma de poder. A partir do momento que democratizamos esse acesso, democratizamos também o poder”, explica Nara Marques, aluna da UFSJ que fez parte da equipe do Cursinho Popular.

No contexto pandêmico, o programa teve que se reinventar. “Foi um desafio trabalhar a educação popular, que exige contato e proximidade, no modelo remoto. Tivemos que desenvolver um método que fosse próximo e coerente com aquilo em que acreditamos”, afirma. “Outras duas grandes dificuldades também apareceram: nossos educandos, muitas vezes, não tinham acesso a ferramentas tecnológicas (computadores e celular), e foi preciso fazer campanhas de arrecadação de aparelhos eletrônicos. Muitos deles também perderam seus empregos, passavam por dificuldade financeira até para se alimentar. Por isso, fizemos a campanha Periferia Viva, para arrecadar cestas básicas e artigos de higiene, que foram entregues às famílias dos educandos.”

Hoje, o modelo remoto está bem consolidado, e abriu a possibilidade para estudantes de outras cidades da região se inscreverem, abarcando um número maior de educandos e de educadores. “Nosso próximo passo é a criação de uma biblioteca popular e a consolidação de um núcleo de memória, cuja primeira ação é realizar um documentário sobre a história do Cursinho, a ser lançado em 2022”, informa Nara.

E por falar em 2022: novas inscrições serão abertas logo no início do ano que vem. De acordo com Nara Marques, os planos são continuar expandindo a atuação do projeto, oferecendo ferramentas sólidas para a democratização do ensino emancipatório. “O Cursinho Edson Luís muda a vida não apenas dos educandos, mas também dos educadores. Somos uma ferramenta de transformação social que coloca jovens na Universidade, mas também muda a realidade dos universitários que participam do projeto, e de toda a comunidade.”

Mais informações, siga a página oficial do CPEL.

Edson Luís
O nome que batiza esse programa de extensão vem de uma história difícil e revoltante. Edson Luís de Lima Souto foi um estudante secundarista assassinado por policiais militares, em 28 de março de 1968, durante a ditadura militar. Com apenas 17 anos, foi alvejado enquanto comia no restaurante Calabouço, da UFRJ, onde estavam outros 300 estudantes. Seu corpo foi carregado em passeata pelo centro do Rio de Janeiro até a Assembleia Legislativa pelos colegas que presenciaram a cena, causando verdadeira revolta entre a população. Depois de Edson, estudantes foram às ruas em protesto contra a ditadura, no que ficou conhecido como Marcha dos Cem Mil. Até hoje, sua memória é reverenciada como expressão da luta e força estudantis.

 

Gabriella Canuto
Estudante de Jornalismo, estagia na Ascom


Publicada em 15/12/2021
Fonte: ASCOM

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