Docente da UFSJ leva à sala de aula o aprendizado no combate à pandemia

Publicada em 19/04/2022 - Fonte: ASCOM

Depois de uma experiência de sucesso na Secretaria Municipal de Saúde de Juiz de Fora, onde esteve como Secretária entre 26 de janeiro de 2021 e 4 de fevereiro de 2022, enfrentando o auge da pandemia de COVID-19, a médica, pesquisadora e professora do curso de Medicina da UFSJ, Ana Pimentel, volta à sala de aula com grande aprendizado e duas certezas: o SUS e as universidades foram decisivos no combate e no controle da Covid-19.
 
No encontro com o reitor Marcelo Andrade, quando se apresentou para reassumir a vaga de docente na UFSJ, Ana Pimenel falou sobre a experiência no cargo executivo num momento tão decisivo, sobre as perspectivas na saúde pública e sobre as mudanças que o desafio no combate à pandemia trazem para o seu cotidiano enquanto professora de futuros profissionais e gestores da área de saúde.
 
Como foi sua experiência à frente da Secretaria de Saúde de Juiz de Fora, uma cidade com cerca de 600 mil habitantes, e que se tornou centro de referência para a Zona da Mata no combate à pandemia?
A primeira questão é que ficou evidente é quanto o Sistema Único de Saúde é resiliente. Mesmo com o desmonte, o desinvestimento dos últimos anos e ataques que sofreu e sofre, de todas as ordens, e a diminuição de recursos, foi o sistema único de saúde que produziu as condições pra gente não ter mais mortes ainda pela pandemia. Isso fica evidente com o aumento de leitos, aqueles que foram abertos para Covid, foram abertos pelo Sistema Único de Saúde, e pela Campanha de Vacinação, que foi executada, implementada pelo SUS, e que hoje dá condições para a gente pensar na vida pós pandemia, num futuro pós pandemia, que ainda não é hoje, masa gente está construindo as condições. Ficou evidente que o SUS é um patrimônio mesmo nosso, uma política pública estatal muito forte e que a gente precisa continuar investindo para os próximos anos. Nós temos uma população num processo de envelhecimento e SUS é muito importante. 
 
E qual foi o lugar das universidades nessa pandemia?
Decisivo. Fundamental. Uma outra questão,muito importante, foi a articulação com as universidades. São esses dois aspectos que chamam atenção: a força do SUS e a força da universidade pública, porque as respostas à pandemia foram articuladas com as instituições públicas federais.A universidade contribuiu decisivamente com a resposta à pandemia tanto com a produção de ciência quanto de tecnologia. No começo, com a produção de álcool, depois com produção de dispositivos, insumos que foram fundamentais na inteligência da articulação das respostas à pandemia. Em Juiz de Fora, por exemplo, nós utilizamos máscaras de VNI (Ventilação Não Invasiva) para evitar, por exemplo, que os pacientes fossem entubados ou entubados precocemente. 
 
Por isso a sua defesa, por diversas vezes, do aumento dos investimentos estatais em ciência e tecnologia? 
Exatamente. Cabe ao setor público esses investimentos e eu acho que a pandemia deixou isso muito evidente, porque se a gente tivesse um processo maior desenvolvimento tecnológico,teríamos, por exemplo, a condição de produzirmos o IFA (Insumo Farmacêutico Ativo), porque as nossas instituições, Fiocruz e Butantã, já dispõem de servidores de excelente qualidade, muito bem informados, com pesquisas muito avançados.Se nós tivermos um maior investimento do Estado para a Ciência e Tecnologia, estaremos preparados para futuras crises. A gente responde com mais rapidez. Então, se a gente tem política de Ciência eTecnologia, organizada em nível nacional, não só com investimentos, mas também com a articulação, porque a articulação é importantíssima, a gente tem muito mais condição de enfrentar as crises e vencê-las.O entendimento é que a gente precisa da universidade pública, com autonomia, com produção científica e com o desenvolvimento de Ciência e Tecnologia garantidos publicamente, com o financiamento específico para isso. E isso sem dúvida alguma vai preparar, vai dar condições para que a sociedade consiga lidar com os problemas de saúde pública que nós temos.
 
Nesse retorno à sala de aula, o que a senhora traz como contribuição a partir dessa experiência? 
A primeira questão é que a experiência da pandemia marcou a sociedade como um todo. Nós vivemos num país onde muitas pessoas morreram ehá uma população que enfrenta outra crise: há epidemia de sofrimento mental. A gente tem uma epidemia dentro da pandemia. E a gente com  toda essa trajetória, sem dúvida alguma, trazer isso para os estudantes é uma experiência viva, muito significativa para a formação. Como é lidar com uma grande emergência de saúde pública, com uma crise sanitária? E como nós precisamos na área de saúde, mas em todas as áreas como um todo, entender a pandemia pra gente, inclusive, conseguir lidar com futuras crises com outras emergências sanitárias. E um outro aspecto que eu já tenho um debate com os alunos nessas primeiras semanas é a questão ambiental, porque a pandemia, na verdade, foi efeito de uma grave crise ambiental que nós temos para a produção de alimentos no mundo. Então, trazer esse olhar, que é um olhar ampliado sobre a saúde,de como a saúde tem a ver com mudança climática, de como a saúde tem a ver com o nosso padrão de alimentação, com a nossa organização da sociedade como um todo, eu acho que é muito importante para a formação dos estudantes. 
 
A senhora é da área da Medicina da Família, aquela que está mais próxima das pessoas. Como a senhora entende o papel da Medicina da Família no contexto pós-Covid?
A Medicina da Família mostrou a sua importância durante a resposta à pandemia, porque ela está perto de onde as pessoas estão. Então isso é fundamental. Ela Foi também essencial para a organização da campanha de vacinação, porque as pessoas se vacinaram prioritariamente nos postos próximos de onde as pessoas moram. Então isso é muito importante para garantir o acesso das pessoas de maneira fácil. A campanha de imunização contra Covid e agora, nesse pós-pandemia, a Medicina de Família vai ser fundamental para o acompanhamento dos efeitos que ficaram crônicos pela Covid. A ciência ainda está estudando muitos desses efeitos, mas muitas pessoas relatam muitas consequências. Então, a saúde da família vai ser essencial para esse acompanhamento, que é o acompanhamento crônico longitudinal das pessoas que tiveram covid e que precisam serem acompanhadas. Ter o cuidado perto de onde as pessoas vivem é fundamental para a gente ampliar o acesso. 
 
E quais são suas expectativas com relação à saúde pública a partir de agora? 
O SUS mostrou que é fundamental parao Brasil. O SUS precisa de mais investimentos porque, com a pandemia, além de toda acarga de doença que já existia, a gente acrescenta uma grave crise de saúde pública, que vai aumentar a demanda por serviços de saúde. Então o SUS é ainda maisessencial, porque nós temos uma população mais adoecida, nós temos uma população que está passando por uma crise econômica e, portanto, muitos deixaram de ter plano de saúde e estão procurando o SUS. Além disso, diversos tipos de atendimento só estão disponíveis no sistema único de saúde. Então, ele sempre foi essencial, mas ele nunca foi tão essencial quanto agora. Por isso a gente precisa de aumentar o investimento no SUS no próximo período. 
 
 
Luciene Tófoli
Assessoria de Relações Institucionais e Corporativas